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O micro-ondas

Todos os dias, por volta das 11 horas da manhã (às vezes mais cedo também, depende da época), é quando começo o cansativo e interminável trabalho de aquecer as mais variadas comidas. E quando eu digo variadas, não é exagerando, tá? Pois esquento (estouro, nesse caso) desde pipocas duvidosas de supermercado até o almoço mais balanceado que parece ter saído diretamente do Instagram de um nutricionista.

 

Não me entendam mal, gosto do meu trabalho, apesar de me queixar diariamente do cansaço, e mesmo que haja humanos que esmurram… bem, fecham minha porta com força para além do necessário. Será que sabem que já fui feito para durar pouco e assim o mercado se aproveita por as pessoas estarem comprando mais, e que vou durar ainda menos se me tratarem assim? 

 

Deixando os desabafos de lado, nunca deixa de ser satisfatório ver amigos se reunindo para compartilhar uma refeição juntos, preenchendo o ambiente com conversas e gargalhadas, ou até mesmo aqueles que preferem se sentar sozinhos quando o subsolo está vazio, apreciando a própria companhia e o silêncio. 

 

Pode parecer uma rotina tediosa, eu sei! Afinal, é sempre a mesma coisa: a pequena porta é aberta, logo depois fechada, as teclas para determinar o tempo de aquecimento são apertadas, esquento o alimento, sinalizo que o tempo selecionado chegou ao fim, a porta é aberta novamente, o alimento é retirado, sou fechado e tudo se repete.

 

Só que tudo vale a pena quando vejo a expressão de alívio de alguns ao terminar de aquecer a comida e, assim, finalmente podem comer para restabelecer suas energias para continuar com o dia. Gosto de pensar que minha função vai muito além do que um simples esquentar comida, pois sou incluído em suas rotinas e essas pessoas contam comigo, o que me torna importante para muitos, não é?

 

Acredito que, com isso, consigam imaginar a minha surpresa ao despertar, um dia, na lata de lixo de um dos banheiros da faculdade. Arrancado do refeitório, mesmo em bom funcionamento, e descartado como lixo. Por que fizeram isso comigo? Se fosse algum defeito, eu poderia ser consertado ainda… ainda há muito que posso fazer. E agora? Onde os alunos irão esquentar suas comidas? Teriam colocado outro em meu lugar? Não poderíamos ser dois e facilitar ainda mais? Está quase na hora do almoço, tenho que voltar para o refeitório!

 

Por Sara Santos.